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Arroba do Boi - R$ (À vista)
SP MS MG
138,00 126,00 131,00
GO MT RJ
126,00 127,00 131,00
Reposição - SP - R$
Bezerro 12m 1280,00
Garrote 18m 1520,00
Boi Magro 30m 1860,00
Bezerra 12m 960,00
Novilha 18m 1140,00
Vaca Boiadeira 1310,00

Atualizado em: 15/6/2018 11:10

Cotações da Arroba: SP-Noroeste, MS-Três Lagoas, MG - Triângulo, GO - Região Sul, MT - Rondonópolis, RJ-Campos
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Adriano Garcia
MTb 10252-MG

 

ARTIGO: Frigoríficos: parceiros ou vilões?

 
 
 
Publicado em 07/10/2005

*Enrico Lippi Ortolani

Os analistas do sistema ESALQ/BMF registraram, em 10 de agosto, o menor preço corrigido da arroba do boi desde 1996. Esse dado poderia ser apenas pontual, mas os estudos demonstram que a queda do preço tem sido progressiva nos últimos anos. Esta notícia surge num momento em que a pecuária nacional atingiu seu auge, visto que agora é a maior exportadora mundial de carne bovina, e que os custos de alguns insumos (fertilizantes, combustíveis, arames para cerca etc) tiveram um aumento expressivo, o que implica dizer num achatamento econômico para os pecuaristas, pois seu principal produto esta sendo desvalorizado.

Considerando que a cadeia da pecuária se caracteriza, basicamente, por três grandes elos, os produtores, beneficiadores (frigoríficos entre eles) e consumidores e que esse último é uma conseqüência dos dois primeiros, é fundamental para que haja progresso na área que deva existir um equilíbrio entre as duas primeiras argolas da corrente. Em outras palavras um tem que ser parceiro perfeito do outro, fazendo uma dupla como Pelé-Coutinho, ou Tonico-Tinoco. Mas a balança está pendendo mais para um lado, o que indica alguém está em desvantagem.

Esse quadro merece uma reflexão histórica. Se estudarmos os ciclos econômicos brasileiros (ouro, cana-de-açucar, café, etc), veremos que a pecuária de corte começou a ter algum destaque econômico no ciclo do ouro, que ocorreu basicamente nas Minas Gerais. Como o dinheiro lá corria “solto” e os trabalhadores das minas precisavam de carne, mais especificamente de charque, esta foi abastecida pelos pecuaristas do sul do país e beneficiada e transportada pelos “tropeiros”, que foram os primeiros controladores da carne no Brasil. Mas o ouro das minas se esgotou e a atividade pecuária se atrofiou. No período imperial, os “tropeiros” continuaram a existir, mas alguns pequenos frigoríficos ligados ao Governo se instalaram, dominando o pequeno mercado urbano nacional.

A grande mudança no sistema ocorreu após a instalação da República, quando a pecuária começou a crescer no Estado de São Paulo e nos sertões do Mato Grosso. Entraram na “parada” jogando pesado e dominando o mercado os grandes frigoríficos ingleses (Armour, Swift, Anglo, etc). Grande parte desses frigoríficos era situado na periferia das grandes cidades.

O mercado consumidor brasileiro foi dividido entre esses frigoríficos, um baixo preço de compra combinado, caracterizando um cartel, e a instalação de alguns conceitos de comercialização que continuam até hoje. O primeiro deles foi à instituição da arroba (medida de peso inglesa) como unidade de compra da carne; segundo foi o pagamento diferenciado da arroba de boi e da vaca, como se o consumidor pagasse um preço diferente pela carne, segundo o sexo dos bovinos; e a fixação de 50% para rendimento de carcaça para machos e de 45 % para fêmeas. Em condições normais a média de rendimento se situa em torno de 2 a 3 % superior a esses estipulados. Já nesta época estipulou-se não pagar os criadores pelos subprodutos (pele, fígado, bucho etc), que geram lucro líquido e certo para os frigoríficos.

Mas na época, a mais devastadora exigência para a pecuária era a compra de bovinos com pelo menos 18 arrobas (era comum se pedir mais de 20). As condições técnicas e a produtividade da pecuária eram desanimadoras, já que não existia suplementação mineral, as pastagens tinham baixa capacidade de suporte, concentrado não era usado nem nos sonhos, nossa genética era duvidosa e as doenças como verminose, febre aftosa, raiva etc eram pouco ou nada combatidas. Assim, os bois para atingirem essa “arrobagem” demoravam 5 a 7 anos na melhor expectativa, o que tornava a maioria de nossa carne dura e gordurosa, como a de um boi carreiro.

Na década de 60, o cenário começou a se modificar, com a instalação e crescimento de alguns pequenos frigoríficos nacionais diretamente na fonte de produção ou seja no interior do Mato Grosso, São Paulo e demais Estados. Esses frigoríficos receberam enormes incentivos fiscais do Governo, em especial do militar e, com esse dinheiro, barato e farto e com a estratégia correta, desbancaram rapidamente o cartel estrangeiro, que já andava capengando.

Mesmo assim, os grupos nacionais mantiveram todas as regras favoráveis citadas acima, criadas pelas suas ex-concorrentes, para seus próprios crescimentos. Introduziram aos poucos uma jogada financeira com retardamento do pagamento do boi, inicialmente com 10, 15, 20 e atualmente 30 dias de prazo, com aval da mídia que hoje consagra essa regra nas suas cotações rotineiras. O pagamento da arroba segundo classificação de carcaça, reivindicação antiga pedida pelos técnicos e pecuaristas, embora aceita por alguns estabelecimentos, ainda é vista com certo desdém pela maioria dos frigoríficos.

Nos últimos 15 anos, nossa pecuária se modificou radicalmente, melhorando a genética, o manejo em geral, assim como o controle das doenças, tornando os rebanhos muito mais produtivos, fazendo com o tempo médio de abate caísse para cerca de 3 anos com as requeridas 18 arrobas, o que incrementou por tabela a qualidade da carne. Embora o pecuarista tenha nesse período feito sua lição de casa, há muito ainda o que melhorar, em especial do ponto de vista sanitário.

Um dos processos mais “engenhosos” dos grandes frigoríficos, prontamente aceita também pelos menores, foi o controle do preço da arroba no decorrer das décadas, em especial nesses últimos anos. Contribuiu muito para esta estabilização dos preços, o aumento do número de bovinos mantidos em confinamento durante a estiagem, elevando a oferta de bois gordos e evitando assim o aumento na arroba durante a seca, comum até o início da década de 90.

Além disso, os grandes frigoríficos têm usado de outras estratégias para manter o preço baixo estável, como a compra de gado em Estados em que os preços são historicamente mais baixos que São Paulo, além do próprio controle nas cotações, visto que os órgãos de consultoria, pesquisa e da mídia que divulgam os preços obtêm as cotações dos próprios frigoríficos que, em conjunto, divulgam preços favoráveis às suas conjunturas, evitando uma disparada. Nos últimos anos têm contribuído também a oferta relativamente abundante de bois gordos, devido ao aumento populacional e técnico da pecuária.

Esse arrocho nos preços traz repercussões negativas para a pecuária. Isso pode ser sentido pelo maior número no abate de fêmeas, que no momento é muito grande, realizado para “fazer caixa” no momento de aperto, para corrigir a descapitalização.

Deve-se ressaltar o lado positivo dos frigoríficos de abrirem enormes frentes para exportação de nossas carnes, o que aumenta a compra de bovinos. Mas, com certeza, essa abertura de mercado só têm ocorrido devido à melhor qualidade de nossa carne e ao “controle” de algumas doenças, em especial a febre aftosa.

É louvável a atitude dos “jovens” frigoríficos de diminuírem o peso exigido para a compra dos animais, pelo menos 15 arrobas, embora paguem mais pelos machos zebuínos com 18 a 19 arrobas e cruzados com 17 a 18 arrobas (“Frigorífico dá prêmio à “boiada ideal” - revista DBO, fevereiro 2005, pg 20), além de estimularem a compra de machos cada vez mais novos.

Finalmente, é hora dos donos de frigoríficos e dos pecuaristas sentarem numa mesa e negociarem uma forma de aumentar a remuneração dos criadores não apenas pela carne, mas também pelos miúdos e pele. Nessa negociação ainda deve entrar em pauta o problema da qualidade dos couros, pois com uma melhor remuneração os frigoríficos poderão reivindicar que os pecuaristas criem adequadamente os bovinos para produzir peles integras e resistentes (evitando marcações em regiões nobres da pele, não usando arame farpado e combatendo carrapatos e bernes).

Com esses acertos, a parceria Pecuarista-Frigorífico entrara na área tabelando e fará muitos gols, trazendo resultados positivos para ambas as partes. Esse diálogo é possível e só um pacto para valer é que corrigirá a balança que agora está pendente para um lado, tirando do sufoco a “galinha dos ovos de ouro”.

*Enrico Lippi Ortolani é professor associado do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. E-mail: ortolani@usp.br

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