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Bezerro 12m 1200,00
Garrote 18m 1430,00
Boi Magro 30m 1720,00
Bezerra 12m 900,00
Novilha 18m 1130,00
Vaca Boiadeira 1350,00

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Adriano Garcia
MTb 10252-MG

 

Corda de enforcado

 
 
 
Publicado em 18/07/2007

Xico Graziano

Algo de errado acomete as finanças da agropecuária nacional. Quanto mais o campo se desenvolve, mais produtores se penduram na carteira do banco. O endividamento do setor rural triplicou em dez anos, atingindo R$ 131 bilhões. Alguém trabalha, outrem ganha.

O governo se gaba. Acaba de anunciar que a agricultura terá crédito de R$ 70 bilhões para o plantio da próxima safra. O recurso ultrapassa 16% o valor anterior. Caiu ainda a taxa de juros do custeio básico, de 8,75% para 6,75%. Aumenta, a cada ano, o crédito rural.

A dívida rural, porém, também se eleva continuamente. A somatória dos débitos já ultrapassa 60% do Produto Interno Bruto (PIB) da agricultura. Tal proporção, em 1995, representava 35%. Piora a cada safra.

É contraditório. O agronegócio vai bem. Evolui a área plantada, rebanhos se multiplicam, a tecnologia se moderniza, as exportações estouram. As fronteiras se expandem, a agroindústria se multiplica. Tanta pujança no campo, todavia, menos se reflete no bolso do agricultor. O agronegócio lucra, o agricultor se aperta.

O endividamento do campo surgiu, ou melhor, aflorou em 1994, com a estabilização da economia. Antes do Plano Real, ninguém sabia, na verdade, quanto devia. Nem interessava. Através do conhecido "mata-mata", tomava-se crédito para quitar o débito anterior. Empurrava o buraco para frente.

A ciranda financeira, com tudo indexado, resultava num ciclo vicioso. Agricultores, como tantos na economia, dedicavam-se mais a gerenciar seu caixa bancário, menosprezando a produção. Parecia mágica. Dinheiro do cheque especial pagava conta de adubo; crédito de custeio virava caminhonete. A ilusão monetária permitia qualquer trambique. Trabalhar menos valia.

Quando a nova moeda assoprou, definitivamente, a fumaça da inflação, o rombo acabou descoberto. Com um agravante. Famigerados planos econômicos, anteriores ao Real, provocaram um descasamento entre as dívidas rurais e os preços agrícolas. Criou-se um fosso entre a receita e o custo da produção.

Durante bom período, naqueles anos, atordoados e temerosos, milhares de agricultores fugiram dos bancos. Depois, ameaçados de execução judicial, tomaram coragem para espernear. Assim promoveram, em 1995, o primeiro tratoraço em Brasília. Quando Fernando Henrique decidiu, corretamente, securitizar as dívidas do setor, foi aí que o sistema bancário, puxado pelo Banco do Brasil, barbarizou. Taxas de inadimplência, multas contratuais e demais sem-vergonhices financeiras engordaram os débitos agrícolas. Resultado: quem financiou um trator, acabou devendo quatro.

De lá para cá, nunca mais a situação se normalizou. Sucessivas rolagens trouxeram à situação presente. Há, também, débitos novos. Entre 2004 e 2006 verificou-se recuo na renda da agropecuária, causada pela queda dos preços internacionais, combinada com a valorização do câmbio. Pesou, também, o elevado custo do óleo diesel, dos fertilizantes e agrotóxicos. Conjuntura perversa.

O xis da questão do endividamento rural está na instabilidade da renda. Sabe-se que existe época de vaca gorda, entremeada com fase de vaca magra. No caso brasileiro, entretanto, conforme denominou Marcos Jank, o problema não é cíclico, mas ciclotímico. O humor da agricultura varia de eufórico para depressivo em tempo recorde.

Uma espécie de psicose maníaco-depressiva do campo se alimenta no sistema de crédito rural. Nos momentos de bom ganho, os empréstimos ultrapassam, num piscar de olhos, a própria capacidade de pagamento. Foi o que ocorreu no começo dessa década. Produtores rurais financiaram máquinas acima do recomendável. Enquanto a carência se cumpria, céu de brigadeiro. Dois anos depois, porém, as parcelas do principal fritaram o freguês. Tempestade brava.

Corda de enforcado. Crédito subsidiado, sem amparo no planejamento cuidadoso, pode criar nova dependência, quando não leva à falência e à perda da terra. Esse processo acaba por enfraquecer o campo. Onde está o equívoco?

Ao invés de mais crédito, carece a agropecuária de um sistema de seguro, capaz de oferecer maior estabilidade à sua renda. Ano passado, cerca de R$ 50 bilhões engordaram as carteiras de financiamento. No seguro rural, entretanto, o dispêndio mal atingiu R$ 40 milhões. Menos de 0,1% dos empréstimos. Aqui reside a grande fragilidade da agropecuária nacional.

Há uma década, desde a crise pós-Plano Real, restou claro que o objetivo básico da política agrícola deveria ser a proteção da renda. A lição se perdeu no tempo. Agora, nova rolagem será efetuada, prorrogando parcialmente dívidas no valor de R$ 6,5 bilhões. Filme velho. Empurra com a barriga a montanha do endividamento rural.

Polan Lacki, agrônomo ligado a FAO, escreveu certa vez instigante artigo, onde perguntava: "No guichê do banco ou no banco da escola?". Tentava ele responder aos dilemas do desenvolvimento rural latino-americano. Fica claro, aos estudiosos da economia rural, que a grande massa dos agricultores carece de educação empreendedora. Um choque de profissionalismo e consciência empresarial. Rumo à tecnologia.

Crédito rural somente funciona bem quando vinculado a projeto técnico de produção, amparado por mecanismos de proteção da renda do agricultor. Fora disso, coberto pelo Tesouro, dinheiro farto alimenta a malandragem e cultiva oportunistas. Agricultor que se preze gosta de trabalhar duro. Sabe que filho mimado, com mesada fácil, não aprende a viver.

*Xico Graziano é engenheiro Agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Administração, foi presidente do INCRA no governo Fernando Henrique Cardoso e Secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, durante o primeiro mandato de Mário Covas, ao término do qual foi eleito Deputado Federal. Hoje é o Secretário de Estado do Meio Ambiente.

Artigo publicado dia 17/7/2007 pelos Jornais O Estado de S. Paulo e O Tempo (MG).

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