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Atualizado em: 12/11/2019 09:46

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Adriano Garcia
MTb 10252-MG

 

JBS prepara reestruturação

 
 
 
Publicado em 17/10/2019

A JBS se prepara para apresentar ao mercado, no primeiro trimestre de 2020, uma nova proposta para reestruturação societária e listagem de ações na bolsa de Nova York (Nyse).

A ideia é que as operações internacionais da JBS estejam reunidas abaixo da empresa a ser listada na bolsa de Nova York. Esses ativos representam pelo menos 75% do faturamento do grupo. Não se trata de listar a JBS brasileira na Nyse, por meio de recibos brasileiros de ações (ADRs). É justamente o contrário disso. No Brasil, a companhia deve permanecer no Novo Mercado da B3, mas com uma estrutura bem menor (apenas a operação nacional). Procurada, a JBS não se manifestou.

A companhia já delineou o que pretende fazer, mas os caminhos jurídicos para esse objetivo ainda não foram escolhidos, de acordo com fontes que acompanham o tema de perto. Com as ações negociadas nos Estados Unidos, a empresa entende que vai enfim cumprir o item que faltava para ser reconhecida pelo mercado - ou seja, no preço - como um grande player global de alimentos.

As ações da JBS são negociadas atualmente com desconto em relação a rivais como a americana Tyson Foods, mas poderiam valer quase dobro se fossem avaliadas pelos mesmos múltiplos de mercado. A percepção é que esse caminho pode ser alcançado com a listagem nos EUA, segundo fontes próximas à empresa. Ontem, a JBS valia cerca de R$ 80 bilhões na B3 - ante R$ 31 bilhões em dezembro.

A transação que levará a JBS à bolsa de Nova York não necessariamente implicará numa captação de recursos por meio de uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês). Isso explica os principais executivos do grupo terem ajustado o discurso ao tratar da questão como uma “listagem” e não um “IPO”.

Na JBS, a avaliação é que a companhia não precisa de recursos. Nos últimos dois anos, o perfil de endividamento da empresa melhorou. Em 30 de junho, menos de 6% da dívida vencia no curto prazo. Além disso, a tendência para a geração de caixa é positiva graças à demanda chinesa e à rentabilidade das operações americanas.

De qualquer forma, ter uma empresa listada em Nova York significa maior poder de alavancagem para aquisições. Mesmo se não captar agora, a JBS poderá acessar o mercado de capitais americano para sustentar suas ambições de crescimento na Europa e nos EUA quando surgirem oportunidades.

Nas discussões para refinar os detalhes da reestruturação societária, a JBS busca um modelo que agrade mais ao mercado e gere menos riscos de contingências e questionamentos possíveis. “Os minoritários são os maiores interessados”, argumentou uma fonte, enfatizando a intenção de compatibilizar os interesses dos diversos acionistas, inclusive a BNDESPar - o braço de participações BNDES que detém 22% das ações da JBS. A família Batista controla o grupo com 42,5% das ações.

O modelo de reestruturação societária avaliado guarda muitas semelhanças com a reorganização anunciada em maio de 2016, que também previa apenas uma listagem e culminaria na mudança da sede fiscal para o Reino Unido. Essa estrutura acabou vetada pela BNDESPar sob o argumento de que a companhia seria desnacionalizada. Apesar de algumas premissas equivalentes, não se trata da mesma transação, asseguraram fontes. Tampouco há uma decisão sobre a questão da sede fiscal neste momento, apurou a reportagem, ainda que evitar a bitributação seja uma premissa assumida.

Após a negativa do BNDES, a JBS chegou a propor uma operação alternativa, em dezembro de 2016. Essa segunda versão previa o IPO das operações internacionais na bolsa de Nova York e manteria o controle do grupo no Brasil, o que contemplou as preocupações do banco estatal. Naquele momento, a empresa precisava captar recursos para pagar dívidas, mas a delação premiada dos irmãos Batista, em maio de 2017, inviabilizou o plano.

Ao promover uma reestruturação em 2020, a JBS estará livre de precisar de um aval prévio da BNDESPar. O acordo de acionistas entre o banco e a família Batista vence no fim deste ano e a instituição não terá mais poder de veto. Assim, não caberá mais a BNDESPar uma análise prévia do tema.

Se for uma operação boa para os investidores, o fim do acordo deixará o banco estatal mais leve para analisar o negócio apenas pela ótica econômica e financeira, sem a pressão de uma análise política do tema pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Pessoas próximas ao tema explicaram que o desejo era ter tudo pronto para o segundo semestre deste ano, mas os estudos se estenderam - e nem mesmo estão concluídos para definição da estrutura.

Ao Valor, uma fonte citou a intenção de que a empresa listada na bolsa de Nova York conte com recibos de ações americanas negociados no Brasil (BDRs), o que fazia parte do modelo de maio de 2016.

Para a B3, embora não seja uma surpresa, a reestruturação societária da JBS é uma má notícia. A companhia é a quarta empresa não-financeira mais valiosa, atrás de Petrobras, Ambev, Vale e Vivo e a segunda maior empresa não-financeira do país, em receita líquida, atrás apenas da estatal do petróleo (entre abertas e fechadas). No fim de junho, a receita líquida em doze meses totalizava R$ 192 bilhões.

Há tempos, a JBS entende que o mercado de capitais brasileiro não permite que o negócio capture o melhor valor possível. O Brasil representa apenas 13% das vendas, enquanto os EUA, 51%.

Estudo com 69 empresas realizado pela Fundação Dom Cabral com dados de 2017 aponta a JBS na 7ª posição entre as companhias mais internacionalizadas do país, bastante à frente de nomes como Gerdau, Vale e até mesmo Embraer. A avaliação levou em conta ativos, receita e funcionários fora do país, com base em metodologia criada pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

A mensagem que fica é que, quando um negócio se torna global a partir do Brasil, precisa procurar um mercado maior. A JBS é negociada por um múltiplo de 6,5 vezes - relação do valor de firma sobre o Ebitda projetado para 2020. Enquanto isso, a Tyson, negócio mais comparável, é transacionada por 9 vezes e outros grandes concorrentes, como Hormel, Sanderson e a canadense Maple Leaf Foods, são negociados por uma razão de 10,5 vezes.

Desde que as tentativas anteriores de listagem na bolsa de Nova York naufragaram, a JBS bate na tecla de que deixou de ser uma companhia brasileira de carnes para se tornar hoje a segunda maior produtora de alimentos do mundo, atrás apenas da Nestlé, quando considerada a receita consolidada.

O discurso é recorrente nas apresentações que a JBS faz a investidores e foi destaque também no evento realizado em setembro, em Nova York. No material levado aos acionistas e potenciais investidores, a companhia colocou sua trajetória em perspectiva e destacou que tinha receita de R$ 4,3 bilhões em 2006, antes da abertura de capital na B3. Hoje, em dólares, acumula receita de US$ 50 bilhões em doze meses, até junho, atrás apenas dos US$ 63,8 bilhões da suíça Nestlé.

Ruído político

A proposta de listagem de ações da JBS na bolsa de Nova York pode sofrer com os ruídos políticos. Em Brasília, o relatório da CPI do BNDES está próximo de ser votado. Nos EUA, dois parlamentares fazem pressão contra a empresa devido à admissão de crimes cometidos pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. Na semana passada, os senadores Marco Rubio, do Partido Republicano, e Robert Menendez, do Partido Democrata, enviaram uma carta ao secretário do Tesouro dos EUA, Steven Mnuchin, pedindo a revisão de aquisições feita pela JBS nos país. A avaliação no mercado é que dificilmente o pedido terá algum efeito, mesmo porque a companhia brasileira mantém um canal de diálogo com o Departamento de Justiça (DoJ) dos EUA. Mas o ruído foi o suficiente para afetar as ações da JBS. Desde o pedido dos senadores, os papéis caíram 4,3%. Com informações do Valor.

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