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Adriano Garcia
MTb 10252-MG

 

Bife aguado

 
 
 
Publicado em 16/05/2007

Xico Graziano

Cuidado. Esses temerosos tempos de aquecimento climático provocam uma perigosa mistura de neurose ecológica com preconceito cultural. Basta ver o caso da pecuária. O coitado do boi está sendo esculachado. Seu arroto virou crime.

Verdade não se esconde. No processo de ruminação, característica dos animais vegetarianos de duplo estômago, como os bovinos e ovinos, resulta a produção de gases. Quando arrotam, as vacas libertam metano, um gás que é 23 vezes mais nocivo, quanto ao efeito-estufa, que o dióxido de carbono.

Desgraçadamente, o feijão, entre outros ótimos alimentos, causa problema semelhante para humanos. O metano é subproduto da fermentação anaeróbica, quer dizer, aquela verificada na ausência de oxigênio. Estufou, precisa sair. Muitas rodas sociais já se prejudicaram por este desleixo da vida.

Até aí, tudo bem. Ocorre que, pela internet, circula a informação de que uma vaca pode arrotar até 500 litros de metano por dia. Haja atmosfera que agüente. Considerando-se que o rebanho bovino, mundial, atinge 1,4 bilhão de cabeças, tal volúpia gasosa é altamente condenável. Morte às vacas!

Procurando outra solução, o cientista Winfred Dochner, da Universidade de Hohenheim, Alemanha, criou uma pílula anti-arrotos, denominada "bolus", para receitar aos bovinos. Tecnologia veterinária de última geração. Chega a ser engraçado.

O assunto, porém, é muito sério. E enganoso. Pense bem: como poderia um animal expelir 500 quilos de gás por dia, se ele, o bicho inteiro, ossos e músculos, pele e tripas, geralmente pesa menos que isso? Será possível arrotar mais que seu próprio volume?

Nem Einstein explica. Trata-se, é óbvio, de uma falácia. Segundo cálculos, sérios, da Embrapa, um boi libera cerca de 60 quilos de metano, não por dia, mas a cada ano. Por dia seriam quase 30 gramas, e não 500 quilos. Enorme diferença.

Contra o boi, ou sua digníssima vaca, existe ainda forte polêmica sobre o custo ambiental de sua carne. O problema reside no consumo de água pelo rebanho. Segundo propagado, a produção de um quilo de carne bovina exige 15 mil litros de água. Fazendo as contas, uma pessoa que mastigue 200 gramas de carne estará contribuindo, por dia, para o consumo de 3 mil litros do precioso bem. Será verdade?

Claro que não. O antiecológico bife aguado é outro engodo do raciocínio, uma conta de bocó. Comprado barato por conhecidos formadores de opinião, o cálculo considera a quantidade total de água que um animal bebe em toda sua vida. Dividido pelo peso de abate, surge o número mentiroso. Onde está o erro?

No xixi do boi. É fato elementar de que o bicho, por muito beber, urina várias vezes no dia, fartamente. Aliás, assim também procedem os humanos. Se a água ingerida fosse sempre armazenada, aquele número assustador estaria correto. Ocorre que, ao fazer pipi, o animal recicla a água no ambiente. Não gasta coisa nenhuma.

Entidades ambientalistas e até mesmo gente da FAO entraram nessa onda de combater o desperdício de água culpando a agropecuária. Já fizeram a conta mostrando que a produção de um único hambúrguer exige tanta água quanto 40 banhos de chuveiro. Balela total.

Tais apocalípticos cálculos se esquecem da lei básica de Lavoisier, de que na natureza nada se perde, tudo se transforma. Confundindo a opinião pública com informações fantasiosas, pouco contribuem para equacionar os verdadeiros problemas da produção agropecuária. E são vários.

Parece que, aos ecologistas inocentes, falar mal do campo é mais fácil. Não fica estranho. A sociedade urbana tem sido contumaz no trato preconceituoso contra seus agricultores, como que a querer renegar seu sofrido passado. Agora que a urbe paga os pecados do aquecimento global, volta sua culpa contra a pobre da vaca.

Ora, quem anda estragando as águas da Terra é a imundície urbano-industrial. E as elevadas emissões de carbono se devem à frenética civilização consumista, oposta à pacata vida rural. Botar a culpa no campo é como varrer a sujeira embaixo do tapete. O raciocínio fácil, enviesado, todavia, permeia inclusive os cientistas de asfalto.

A maior prova disso se encontra nos atuais dados sobre emissão de gás carbônico. Afirmam os cientistas do IPCC que o desmatamento é responsável, no Brasil, por cerca de 70% das emissões nacionais dos gases-estufa. As queimadas na Amazônia, portanto, sobrepujariam, de longe, as emissões urbanas. Estranho.

Cuidado, novamente, com o número. A metodologia do cálculo das emissões oriundas do desmatamento supõe que, numa certa área, toda a massa vegetal das árvores - madeira, galhos e folhas – seja queimada, fazendo subir aos céus a fumaça carregada com dióxido de enxofre. Pura hipótese.

Na prática, apenas pequena parte do volume derrubado da floresta arde no fogo. O restante, acima de 70%, representa exatamente a cobiçada madeira, que segue adiante para a construção civil e a movelaria do centro-sul do país, ou embarca para o resto do mundo. Bem ou mal, esse cerne valioso significa carbono imobilizado. Na conta dos desavisados ecologistas, todavia, tudo virou fumaça.

Qualquer desflorestamento é condenável. Seguido de fogo, então, deve ser execrado. Mas é errado considerar que a agropecuária seja a maior responsável pela emissão dos gases-estufa. Fazendo as contas corretas, são as emissões veiculares e as chaminés nas metrópoles as grandes culpadas pelo aquecimento do Planeta.

Ecologia não combina com ideologia.

 



*Xico Graziano é engenheiro Agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Administração, foi Presidente do INCRA no governo Fernando Henrique Cardoso e Secretário da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, durante o primeiro mandato de Mário Covas, ao término do qual foi eleito Deputado Federal. Hoje é o Secretário de Estado do Meio Ambiente.

Artigo Publicado dia 8/5/2007 pelos Jornais O Estado de S. Paulo e O Tempo, de MG.

 

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