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Adriano Garcia
MTb 10252-MG

 

Dilema da comida

 
 
 
Publicado em 20/05/2008
Xico Graziano

O agricultor José Batistela acompanha, curioso, as notícias sobre a crise global de alimentos. Assusta-se ao escutar no rádio, dito por importante homem do FMI, ou da ONU, não tem certeza, que a fome poderá desencadear a terceira guerra mundial. Puxa vida, encrenca séria.

Reflete o velho sitiante de Araras. Homem rude, nascido na roça, mãos calejadas no guatambu da enxada, sempre gostou de uma boa polêmica. Descendente de italianos, daqueles que ergueram o colonato do café, seu José está confuso.

Rememora o tempo em que plantava feijão, arroz e milho no seu pedaço de chão. Naquela época, há meio século, o alimento próprio fazia parte da subsistência familiar. Havia de tudo em casa: lingüiça, banha do porco, frango caipira, polenta, ovos e leite frescos, verdura da horta, fruta do pé, café moído na hora. Fartura da terra.

As coisas, porém, mudaram. A urbanização, acelerada pelo êxodo rural, seduziu a sociedade. O valor do moderno passou a residir no pátio da indústria e no asfalto do comércio, não mais na poeira do campo. Com o tempo, o empório da cidade passou a oferecer comida barata. Depois, chegaram as gôndolas dos supermercados. Acabou o granel.

Nesse processo, os agricultores familiares aprenderam dura lição, preparando-se para enfrentar o mercado. Tarefa nada fácil. Concorrência exige qualidade, regularidade de oferta, escala e tecnologia. Jogo cruel do capitalismo.

José Batistela desistiu de cultivar cereais. Não valia mais a pena. A cada safra, perdia dinheiro. Na correria da cidade, assim lhe parecia, ninguém arranja tempo para cozinhar feijão. Mudam os hábitos alimentares, alimentos processados ganham espaço na mesa. Fast food.

Resolveu mudar de atividade. Plantou laranja. Nunca se arrependeu de trocar a subsistência pela lavoura comercial. Entrou na cooperativa, participou dos ''dias de campo'' dos agrônomos, buscou dinheiro do crédito rural, investiu em tecnologia. Era pequeno o seu pomar, mas ele se tornou, orgulhoso, um empresário agrícola. Na década de 80 ganhou dinheiro na citricultura, educou os filhos.

As fábricas de suco de laranja, porém, começaram a apertar seu calo. A situação era desigual. De um lado, poucas empresas compram fruta. Do outro, milhares de produtores oferecem seu suor. Pragas novas surgem, qual desgraça dos céus. As multinacionais controlam o fertilizante e os agrotóxicos. Míngua a renda do agricultor.

Teimou na citricultura, enfrentando ácaros e amarelinhos, que lhe roubavam o vigor da planta. Até que cansou e tomou uma importante decisão: arrendou sua terra para a usina plantar cana-de-açúcar, contrato de longo prazo, remuneração certa, mais que o dobro da laranja, e se aposentou. Afinal, já morava mesmo na cidade, fugindo da estrada esburacada de sempre. Orgulhoso, participa agora do mundo do etanol, a coqueluche do momento. Chega de problemas.

Pequeno agricultor não é coió, conforme imaginam intelectuais urbanóides. Ninguém planta por ideologia. Produzir comida, afora a antiga subsistência familiar, somente vale a pena se der retorno, pagar os custos, devolver dinheiro para cobrir a conta de casa, o estudo dos filhos. Ou quitar o financiamento no banco.

Reclamam que a carne bovina elevou seu preço no açougue. Também, pudera. Durante os últimos cinco anos, controlada pelos frigoríficos, a arroba do boi despencou. Não pagava o sal mineral. Para sanar o prejuízo a saída era matar vaca. O Brasil, entre 2003 e 2006, realizou a maior matança de fêmeas da sua História. Resultado? Faltou bezerro, garrote que não engordou. O preço da carne subiu.

Com o trigo, então, deu dó. No início dessa década, o País atendia 65% do consumo interno. Com boa política, poderia avançar mais, investindo no trigo irrigado do cerrado. Não houve, todavia, nenhum estímulo ao triticultor. Com seguido prejuízo, diminuiu o plantio. A safra reduziu-se a 25% da demanda nacional, exigindo elevar a importação. O barato saiu caro, basta ver o preço do pão e do macarrão. Culpa do agricultor?

Durante os últimos 30 anos o preço dos alimentos recuou pela metade, ou mais, favorecendo os consumidores. O Brasil pôde-se urbanizar e se desenvolver graças à competência dos seus agricultores, que, aliás, nunca foram reconhecidos por isso. O abastecimento barato permitiu o sucesso da estabilidade econômica, segurando a inflação. Quase mata, porém, os produtores rurais, até hoje endividados. Aqui mora o dilema da comida.

Falta, com certeza, alimento no mundo e muita gente passa fome por aí. Nessa conjuntura, o Brasil poderá levar enorme vantagem. Existem tecnologia, gente e terra de sobra, capazes de produzir aqui dentro e ainda vender aos chineses, indianos, russos, quem quiser. A agricultura nacional se estimula com a alta internacional dos preços, sem medo daqueles preguiçosos produtores, lá fora, acostumados com a vida mansa do farto subsídio.

Essa crise mundial de alimentos poderá devolver a dignidade perdida ao agricultor. Assim imagina o pessoal da roça. A sociedade urbana, consumista, que ilude e entope de bugiganga o povo, levou-o a imaginar que o mundo pode viver sem agricultor. Na fartura, desprezou-o, como se banal fosse a labuta no campo. Agora, na carestia, suplica para plantar mais.

Ora, produzir é fácil. Mas ninguém, na roça ou na cidade, produz para ter prejuízo. Quem garante a renda do produtor rural? Com óleo diesel subindo às alturas e fertilizante dobrando de preço, o agricultor aprende economia. Será que, depois de engraxado o trator, os preços vão desabar novamente? Seu José gostaria de saber.

Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

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